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Meu perfil BRASIL, Nordeste, RECIFE, Mulher, de 26 a 35 anos, Amo música, foto, viajar, escrever, ler e muito chocolate!! |
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Domingo, 25 de setembro de 2004... Acordei às 7 da manhã porque alguém me chamou para o café... Levantei da cama me sentindo nova! Praticamente uma loba do mar! Mas, ao levantar, percebi que se ficasse muito tempo ali no camarote, naquele balanço, as coisas poderiam voltar a complicar. Lembro que Lia me dizia a todo momento: "cai fora, cai fora". Mas, só consegui "cair fora" uns 30 minutos depois.... É que sou um pouco lenta para tomar banho e trocar de roupa, principalmente quando preciso me equilibrar!
Equilíbrio! Essa foi a palavra que me arrancaram do dicionário antes de embarcar no Cisne Branco! Ainda descubro quem fez isso! A todo momento, estava me segurando em algo ou em alguém... Ousaram me chamar de mulher-aranha... Mas, eu não tava nem aí... Faria tudo pra não passar pela vergonha de uma queda.. Mas, isso foi inevitável! Levei duas! Enormes! Além dos vários tropeções e pancadas... Cheguei em Noronha cheia de ematomas! Me apelidaram de repórter cai-cai...
A primeira queda foi silenciosa, sem testemunhas... Estava indo para a Praça D'Armas tentar comer alguma coisa... Desde o almoço do dia anterior que meu estômago não recebia nada... só dava! Com o balanço, saí deslizando por um dos corredores do navio até cair sentada em um dos sofás! Até desconfio que o local daquele sofá foi meticulosamente calculado... Ele não estava ali por acaso! Imagino que já deva ter recebido vários corpos tombados... Lembro que assim que caí passou alguém perto de mim... Eu simplesmente fiz cara de Monalisa, assoviei e cruzei as pernas... Fazendo o tipo "estou apenas apreciando a vista"... Mas, que vista? estava no interior da embarcação...
Finalmente cheguei à Praça D'Armas, mas para minha tristeza o café ainda não havia sido servido! Tomei apenas dois dedos de leite para ingerir mais um dramin... Eu queria estar prevenida! Tratei de sair logo daquele lugar, que tanto me lembrava uma "montanha russa", e subi para o convés! Com fome!!! Mas, preferindo o estômago vazio à uma nova injeção!!!!
Fiquei no convés e comecei a fazer minha segunda matéria... Era inevitável... Eu precisava escrever, no mínimo, as informações que colhia... Não sei se é a idade, mas a minha mente não anda funcionando tão bem... Já não tenho memória, apenas uma vaga lembrança! Eu tentava escrever devagar pra não passar mal novamente... E naquele ritmo fui até umas 10h... Mas, voltei a enjoar e por sugestão do comandante, tomei outro comprimido e me deitei por uma hora e meia, mais ou menos... Foi um santo remédio... O que me garantiu o resto da viagem!
Levantei umas 11h30, voltei ao convés e mandei ver na matéria... Ao meio-dia paramos para o almoço... Àquela altura eu já estava faminta, mas enjoava só de pensar em comida... Mas, insisti em tentar participar da refeição... Pra minha desgraça... Não, engana-se quem pensa que eu voltei a passar mal... A situação foi muito pior! Foi exatamente na Praça D'Armas, na hora do almoço, que eu levei a minha segunda queda histórica! E dessa vez com várias testemunhas oculares, entre tripulação e convidados!!!
Sentada à mesa, equilibrava o copo e os talheres ao mesmo tempo que tentava ingerir um pedaço minúsculo de presunto com frutas... Confesso que estava mais interessada nas frutas... Só de olhar para a carne e o arroz, meu estômago embrulhava... Estava em um sofá encostado na parede, com uma mesa presa à minha frente (creio que seja chumbada), uma pessoa ao meu lado direito e outro ao meu lado esquerdo... Lembro que pensei: "Pode balançar o que for, mas desse jeito, estou segura" ... Certo? Totalmente errado... Coincidência ou não, mal acabei de pensar na minha segurança, já me vi no chão!!!! Como? Pasmem!! Com um balanço mais forte, passei por debaixo da mesa! Deslizei como uma olha de papel!Nem a Ana Maria Braga seria tão competente!
A gargalhada foi geral! Óbvio que o meu próprio riso se juntou ao côro da alegria... Viva meu senso de humor!!!! Mas, aquela queda era a minha deixa... Saí da Praça D'Armas, mais uma vez, sem conseguir ingerir nada... Acho que o comandante se condoeu da minha situação e mandou que me dessem uma maçã! Esse foi o meu almoço e confesso que foi providencial!!!!! Nessa brincadeirinha, perdi 2 quilos na viagem e, óbvio, amei... Acho que preciso fazer uma travessia mais longa, tipo Noronha-Rio de Janeiro, para perder uns 10 quilos... E viva o Spa Cisne Branco!
Passei a tarde no convés fazendo minhas sonoras... Ou entrevistas, como queiram!!!! Como em minhas matérias gosto de mesclar um pouco de brincadeira, lá fui eu... Troquei de lugar com o mestre... Ele assumiu o meu microfone e eu, o seu apito!!!! Bem que eu tentei, me esforcei... Bem que ele me ensinou, mas a verdade é que não consegui emitir nenhum som daquele instrumento... Derrotada por um objeto tão pequeno! Francamente, acho que estava com defeito! É, é isso, devia realmente estar com defeito!!!!
Com o fracasso nas notas e sons que repassam as ordens de comando, resolvi investir em outra área... Assumi o timão!!! Virei Timoneira por alguns, digamos, dois minutos... Tempo suficiente para ser avaliada e receber um "Bom Governo, Timoneiro"... O que significa dizer que fui... péssima!!! A expressão "Bom governo, timoneiro" é usada exatamente pra chamar a atenção do timoeniro pra que ele "se oriente"! Mas, na minha avaliação (e olhe que sou muito crítica) acho que não fui tão ruim... Afinal, chegamos em Noronha, não chegamos? E aqueles meus dois minutos na direção do navio poderiam ter feito o Cisne Branco perder a rota, não acham?
Continua...
O vento finalmente mudou de direção e as velas do navio puderam ser abertas... Até então, estávamos em navegação mista - vela e motor. É simplesmente lindo ver o navio com quase todas as velas em uso... Mas, pra que isso aconteça, o trabalho é grande... é um tal de apito pra lá, força pra cá... puxa cabo pra cá, cabo pra lá... Parece um ballet, com uma imensa disciplina!!!! Na hora do "vamos ver" toda a tripulação participa das manobras no convés... Em cada mastro, uma equipe!!!! E o interessante é que ao final do trabalho há uma comemoração diferente... Quando ocorre tudo bem, os marinheiros fazem algumas flexões... Tá doido? Se fosse eu, iria querer fazer tudo errado... Fazer flexão já é um negócio chato e cansativo... agora, fazer com um navio em movimento e inclinado... Ah, não comentei né? Quando as velas estão abertas, o danado do Cisne inclina mais ainda... afinal, é um veleiro! E quanto maior a inclinação, menor o equilíbrio... principalmente o meu!
Mais um fim de tarde chegou.... Outro pôr-do-sol (cada um é único)... Outro cerimonial à bandeira... Dessa vez teve até Hino Nacional! E dessa vez, não confundimos os marinheiros com o som gravado do apito! É bonito ver a tripulação cantar o Hino...Mais uma vez fui tomada por um sentimento patriótico... Quase que entrava na "formação" também, mas lembrei que sou civil e não militar... E além do mais, não daria certo...Com a inclinação do Navio, era difícil, até para os marinheiros, manter o equilíbrio... Cada verso, uma balançada... cada nota, um escorregão... Agora imaginem se eu estivesse naquela fila? Cada balançada, um risinho... Cada escorregão, uma gargalhada... Meu patriotismo iria embora em segundos! Ao final do hino algumas pessoas (duas, eu acho) aplaudiram... Nunca bato palmas depois do Hino Nacional... Aprendi, quando criança, na escola que não devemos fazê-lo... Só não sei bem o porquê... É uma daquelas coisas que você aprende, mas nunca questiona a razão! Mas, tem sido assim a minha vida inteira!
A noite chegou e trouxe mais música para o navio... Dessa vez não foi o Hino Nacional, mas, sim, pagode e forró... Confesso que não sou muito fã de pagode... e forró, pra mim, tem que ser do legítimo! Mas, quem tá na chuva é pra se molhar e a diversão veio a calhar... dancei, ri, brinquei e até... cantei!!!!! A cena foi meio patética... Eu, no convés, agarrada em uma corda, tentando me equilibar, cantando um brega rasgado com versos que dizem "foi num frasco de perfume, que te fiz prova de amor, mas voce sentiu ciúme e o perfume quebrou..." Dizem que todos nós temos um pouco de "breguice" nas veias... Acho que é verdade, pois, no fim das contas, todo mundo, inclusive o comandante, já estava cantando o refrão "Meu bem, ai meu bem, eu não sou um traidor, eu me agarro com a serpente, arranco todos os dentes como prova de amor"... Tripulação e convidados viraram back vocal!!!! Isso foi muito legal!
A cantoria acabou cedo, pra minha tristeza... "Quando entro numa farra, eu não quero sair mais não". Às 7 da noite fomos jantar... Festival de pizza! Nossa, adoro massa, mas só consegui comer meia fatia... Fui pra maçã de novo! Pelo menos dessa vez eu consegui ficar na Praça D'Armas e participar do jantar, né? Foi engraçado ficar sentada observando o "desequilíbrio" das pessoas... Percebi que eu não era a única... O cinegrafista do Canal 21, que carinhosamente apelidamos de Ninja, coitado, levantou para pegar mais um pedaço de pizza e com o balanço caiu ajoelhado diante da mesa... O cara só podia ser ninja mesmo! Eu, diante da cena daquele rapaz ajoelhado em frente à mesa, não perdi a oportunidade: "Obrigada Senhor pelo alimento"...
Mas, o "Ninja" não foi o único a desequilibrar... o próximo a cair foi um rapaz que estava sentado ao meu lado... E adivinhem onde ele resolveu se aboletar? Exatamente!!! Em cima de mim! Levei aquele banho de coca-cola!!!!! Mas, não liguei... afinal, dizem que coca-cola é bom pra enjôo né?
Depois do jantar me deitei um pouco, mas às 23h já estava no convés esperando avistar Noronha... Aliás, todos estávamos! Seria a primeira vez que chegaria à Ilha de navio... Era a primeira vez que a enxergaria por um outro ângulo... Em pouco tempo avistamos a Esmeralda do Atlântico... Chegamos sob a luz da lua, por volta da meia-noite, uma da manhã, horário de Noronha.. Sim, o fuso horário de lá é diferente! A minha aventura no mar havia chegado ao fim...Infelizmente! Mas, eu ainda tinha uma noite no Cisne Branco e dormi como uma rainha... Pela manhã, mil fotos, trocas de e-mails e telefones com todos com quem fizemos amizade... Recebemos das mãos do Comandante um certificado de participação... As nossas 36 horas no mar, 298 milhas náuticas, estavam devidamente registradas... O certificado vai pra moldura... as fotos vão para álbuns e porta-retratos... e a emoção vai para a minha memória pra sempre...
Desembarquei às 11h... Eu e minhas 4 bolsas... lembram? Mas, por incrível que pareça ninguém pareceu se incomodar ou achou estranho quando eu apareci no convés com tanta bagagem... Também, isso era o de menos depois de tantas quedas, micos, vexames e cantoria... Nunca mais serei a mesma depois do Cisne Branco... Mas, acho que o Cisne Branco também nunca mais será o mesmo depois de nós... E se algum dia, ao visitar o navio, vocês encontrarem uma placa de proibida a entrada com uma foto de uma garota, desconfiem: ela pode ser eu!
Fim da aventura no mar
Hoje é dia das crianças!!!! Sempre amei a data e continuo amando... Lembro que até os meus 17 anos, ganhava presentinhos... E embora fosse adolescente e estivesse naquela fase de querer ser adulta, adorava receber os mimos!!!! Às vezes era um brinquedo, uma boneca, um bicho de pelúcia... Às vezes era uma roupa... Às vezes dinheiro, pra escolher o que eu quisesse... Às vezes, apenas chocolate (hummmmm)... O presente, em sim, na verdade, não importava... Eu gostava mesmo era da lembrança! Talvez porque no íntimo, ainda me sentia como criança, mesmo sem querer admitir! Hoje eu berro aos quatro cantos, sem o menor constrangimento, "SIM, SOU CRIANÇA"... Com 32 anos, até o dia 20 de dezembro, quando faço aniversário!!! Pois, é, caminhando a todo vapor para os 33, mas ainda assim, criança!... E quero continuar dessa forma pro resto da minha vida... Só falta voltar a receber os presentinhos no 12 de outubro!!!!
Fiquem, agora, com um pouco do meu passado!!!

Querem ver mais fotos antigas? Acessem o meu Fotoblog e não esqueçam de comentar!
Sábado, 25 de setembro de 2004.. Chego ao Marco Zero, no Recife Antigo, às 9 da manhã, apreensiva e ansiosa! Era a primeira vez que eu embarcaria em um navio rumo ao arquipélago de Fernando de Noronha!!!! Desço do carro tentando ser discreta, mas desconfiada que, carregando uma bolsa enorme vermelha, eu realmente não conseguiria passar despercebida! Juro que tentei levar uma bagagem menor, mas depois de tirar e colocar, dez vezes, as roupas na bolsa, vi que não dava! Aliás, nunca dá! Desisiti! "Não é possível que num navio daquele tamanho não caiba minha bolsa", pensei! Coube! A minha e mais três... Eu disse T-R-Ê-S, enormes, que eu tive que levar comigo, fazendo um favor a duas amigas que iriam embarcar à tarde para Noronha, mas que já haviam excedido o peso na companhia aérea!!!!! Àquela altura, o meu medo não era mais achar espaço pras malas ou ser discreta, mas, sim, a Marinha achar que eu estava de mudança pro Navio e barrar a minha entrada! Por via das dúvidas, embarquei uma bolsa de cada vez! Se alguém me observou, deve ter me achado uma louca, ou pelo menos, que eu tenho duas irmãs... gêmeas!
Assim que desci do carro fui direto me apresentar no navio! Enquanto eu subia a pequena rampa, minha mente, fértil como sempre, começou a trabalhar... Nessas horas sempre penso que estou em um episódio da Comédia da Vida Privada... E se eu fosse barrada? Já pensou ser impedida de entrar no Navio-veleiro Cisne Branco da Marinha do Brasil depois de tanto alarde que fiz? Seria horrível... Já fui imaginando o que eu diria: "Ah, desculpe, eu me confundi, aqui não é o check in da Varig? Nossa, aqui não é o aeroporto?"
Mas, a medida que fui subindo, meus pensamentos foram se acalmando... Ora, Baby Consuelo e Pepeu Gomes foram barrados, junto com as filhas, na Disney e lucraram muito com isso... O episódio virou música! Pronto! Era exatamente isso que iria fazer: compor uma canção! Pra sorte da MPB e de todos os apreciadores de uma boa música, eu embarquei!
Aliás, fiquei impressionada com a organização da Marinha... Meu nome já estava lá, numa lista de check in, com a indicação do local onde eu seria acomodada: camarote 12! Prontamente um integrante da tripulação me acompanhou até o local carregando minha bolsa (mal sabia ele que eu subiria mais três).. Tudo perfeito não fosse o fato de eu começar a pagar mico! Ao passar por uma das portas do navio, tropecei, me enganchei, quase caí escada a baixo... o coitado do "marinheiro" não sabia se segurava a mim ou a bolsa... senti que ele quis rir, mas em serviço não poderia... Olhei pra ele meio sem graça e disse: calma, vou me acostumar! Mas, mal acabei de falar, levei outra tropeçada! Dessa vez ele não segurou... teve que rir.. e eu preferi relaxar e cair na gargalhada também!
Entramos no camarote (diga-se de passagem, meu nome já estava numa plaquinha na porta) e o rapaz já começou a dar um monte de instrução... a temperatura do ar-condicionado ... os armários... a torneira... o chuveiro... a água quente... a válvula... fiquei mais atordoada com a explanação de tanto detalhe do que com a quase queda na escada... mas, preferi assentir com a cabeça confirmando que havia entendido tudo... pra não magoar o rapaz! Mas, antes dele sair eu ainda disse: "qualquer duvida, eu grito!" Pela cara de assustado, acho que ele não entendeu a brincadeira...
Na porta do camarote me deparei com outro tripulante que acompanhava mais uma convidada para a viagem... Ao me ver, todo sorridente, me falou: Tell Aragão!!!! Seja bem-vinda... me deu dois beijinhos, me apresentou à moça que estava com ele e saiu... Até hoje não sei exatamente quem ele era, mas devia realmente me conhecer... E eu, claro, fiz questão de responder a ele como se o conhecesse há anos!
Depois que me instalei e me familiarizei com todas as escadas, batentes, portas, saídas e entradas do navio, desembarquei pra começar a fazer a matéria sobre a largada da Regata... Estava muito preocuopada... tinha pouco tempo pra fazer o VT, pois às 11h eu teria que estar a bordo do navio, para as boas-vindas do comandante, e a largada estava atrasada... tudo estava atrasado! Até a feira náutica, que só veio abrir suas portas às 10:40... Minha outra preocupação era, também, com o tempo... o tempo da matéria! No dia anteriror levei uma "chamada": seja resumida! essa é a pior ordem que eu poderia receber... geralmente, falo demais... Não sei se vocês já perceberam! Bom, o tempo no Marco Zero eu consegui administrar e às 11h em ponto eu estava assistindo a um vídeo sobre a embarcação e ouvindo as instruções do comandante e de um outro oficial.... Agora, quanto ao tempo do VT... bom, eu tinha dois minutos, mas fechei em três e meio... e não se fala mais no assunto!
Ah! só um aparte: Entrevistar as pessoas na largada da regata é muito interessante... é dificil achar alguém que realmente saiba o que está acontecendo... esse ano, me deparei com algumas respostas do tipo: "realmente, a abertura do verão é uma coisa muito bonita"... ou ainda: "acordei cedinho, seis horas, pra ver a fragata"... mas, tem os honestos: "não sei bem o que é não, eu vi esse navio (o Cisne Branco) na televisão e vim ver pessoalmente"
A Regata começou atrasada... e lenta... o vento não estava favorável... Deu um pouco de agonia ver os veleiros tão devagar... Mas, um a um, eles passaram... 130 ao todo, se não me falha a memória... E a bordo do Cisne Branco, vi todos os veleiros: os grandes, os pequenos... barcos com velas brancas, coloridas...Gente famosa como a família Shürmman, que já vive no mar há 20 anos! Vi até o meu favorito: o pernambucano Ave Rara... que diga-se de passagem, venceu a Refeno... Chegou em primeiro lugar e levou a Fita Azul! "Salve oh terra dos altos coqueiros! De beleza, soberbo estendal! Nova Roma de bravos guerreiros, Pernambuco imortal, imortal!"
Vendo os veleiros, tive vontade de velejar... Foi aí que lembrei que eu também estava naquela aventura... Deu um frio na barriga e uma vontade que o navio saísse logo... Mas, o Cisne Branco foi o último a largar e só partimos perto das 14h... E para matar o tempo, tratei de registrar tudo em fotografia (veja algumas aqui)... Viva a máquina digital!
continua....
A saída foi emocionante... a multidão acenando no cais e o navio se afastando aos poucos, deixando para trás o adeus de cada recifense... Fico imaginando a vida de cada tripulante do navio... em cada porto, a mesma cena: adeus, saudade... Uma vida cheia de despedidas e chegadas... Deve ser difícil... aliás, quero, na próxima, falar sobre isso na minha matéria... esse ano não deu... mais uma vez eu tinha que ser resumida e mostrar, em apenas 4 minutos, uma viagem que durou 36 horas!!!!! Fechei em 6 minutos e meio e, mais uma vez, não se fala mais no assunto!
Durante um tempo vi o Recife ser deixado pra trás... as pessoas, o barulho, a movimentação, tudo foi se perdendo do alcance da minha visão e audição! Várias embarcações, entre lanchas e barcos pesqueiros, nos acompanharam por alguns momentos... Todas traziam pessoas eufóricas a bordo, gritando e acenando... Eu, já no clima da situação, acenava também, jurando ser parte da tripulação do Cisne Branco. E era, pelo menos naquele momento! Mas, afinal, que mágica é essa que o navio possui que nos faz ficar assim, extasiados? Não sei bem ao certo, mas sei que é uma mágica própria do Cisne Branco. Nenhum outro navio da Marinha causa tanto frisson ao atracar nos cais dos portos brasileiros... E, segundo o comandante, a cena se repete nos portos internacionais! Antes de participar da Refeno, o Navio esteve nos Estados Unidos e a receptividade foi muito parecida com a nossa!
Talvez seja pela beleza e estrutura do navio... São 249 pés, ou, pra ser mais clara, 76 metros de comprimento... Dezoito quilômetros de cabos...Trinta e uma velas e três mastros: Traquete, Gata e Grande, que, como o nome já diz, é o maior de todos com 46 metros... aliás, na minha próxima aventura no Cisne, prometo que subo no mastro! São cerca de 20 camarotes e corredores cuidadosamente decorados com quadros, placas... Detalhes que fazem a diferença!
Incorporado à frota da Marinha em 2000, para as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, o navio foi construido na Holanda em 1998, inspirado nos "Clippers"... É uma réplica das embarcações do final do século XIX... Lógico que com mais algumas "coisitas", como luz, água (quente e fria), ar-condicionado, equipamentos de comunicação e de navegação, como aparelhos de GPS etc etc etc Mas, nem o conforto nem a modernidade tiram o charme do veleiro... Inevitavelmente você viaja ao passado!
Almoçamos por volta das 15h... Honestamente não sei direito o horário... Era o que menos queria saber!! Marinheira de primeira viagem, literalmente, comi de tudo que havia na mesa... Inclusive feijão preto... Prato, aliás, que fiz questão de repetir! Quanta gula! Já no nosso primeiro almoço, senti que não seria fácil fazer as refeições...Talheres caíam, copos eram derrubados... Na Praça D"armas, local das refeições e de lazer, o balanço do navio parecia ser maior.. E incomodava um bocado! Mas, "é psicológico", me disseram... É só não pensar sobre isso! Ora bolas, eu não estava pensando, eu estava sentindo... Ainda bem que eu havia tomado um dramin antes de embarcar!!!!
Assim que almocei, tratei logo de voltar ao convés para "estabilizar" aquela sensação estranha... Teria voltado mais rápido, não fosse um senhor sentado ao meu lado, que não parava de falar nem por um instante... Eu não achava uma brecha pra pedir licença e me levantar... E o que é pior, meio mareada, como estava, não prestei atenção a uma só palavra daquela conversa! Mas, consegui sair viva e me senti uma vitoriosa... No convés, a sensação de tontura passou e eu havia seguido o conselho de todos: "se alimente bem!" O problema é que eu acho que exagerei! Lição número um: coma moderadamente e prefira as frutas!
Fiquei no convés todo o resto da tarde... conversando com um e outro, pegando informações pra minha matéria, observando tudo e fazendo novas amizades... Adoro isso! Conheci pessoas interessantes... tudo gente boa, cada um a seu modo, com sua personalidade e temperamento... Fiquei mais próxima de Lia e Mariane e tenho me comunicado com elas, mesmo tão distantes... As duas moram no Rio de Janeiro, aquele abraço! Afinidade é uma coisa engraçada, não há distância que impeça!
Ao cair da tarde, exatamente no momento em que o sol se "esconde", é hora do cerimonial à Bandeira! E enquanto o astro centro do nosso sistema planetário vai dizendo até amanhã, a bandeira é retirada... Nessa hora é impossível ficar indiferente... bate um sentimento de patriotismo... De amor ao nosso país!!! E ficamos naquele silêncio, observando todo o ritual... Só se ouve o barulho do mar e o som de um apito... Nos navios da Marinha as ordens são repassadas por apito... cada toque tem um significado... Só no Cisne Branco são utilizados mais de 100 tipos!
Meu cinegrafista, José Antônio, registrou todo esse momento e, tanto eu quanto ele, ficamos tão fascinados com a cena que antes mesmo de acabar fomos ver as imagens na câmera... Tudo muito bom, não fosse pelo fato dele esquecer de baixar o volume... E assim que foi dado o play, lá estava o som do apito novamente... alto como se fosse ao vivo... Tive uma crise de riso, nervosa, e o Zé se desperou... Quanto mais ele tentava baixar, mais ele aumentava... De repente todo o navio estava ouvindo novamente o som do apito e ninguém sabia de onde aquilo estava vindo... Um dos oficiais, desesperado, já estava pronto a chamar a atenção dos seus subordinados... E os subordinados, coitados, suando, imaginando que levariam uma "chamada", se entreolhavam sem entender como aquilo estava acontecendo... Um outro oficial me confessou, depois, que passou a procurar algum navio que estivesse por perto... Pra ele, essa seria a única explicação lógica... pra evitar maiores problemas, eu me acusei logo: Fomos nós! É a câmera! Calma! E quando eles viram a nossa cara de desespero, caíram na risada... Ufa! Achei que iria pra prancha!
continua...
O cerimonial é encerrado tendo o sol e a lua como testemunhas... E basta o astro rei se esconder para a lua reinar soberana... Cheia e linda, iluminando todo o mar! Uma visão fantástica, inesquecível... Inesquecível também são algumas tradições a bordo... Assim que o sol se põe, é hora de desejar boa-noite... E todos se cumprimentam... Claro que eu só vim entender isso depois... Assim que um oficial me desejou boa-noite eu logo perguntei: "Já vai dormir?" Nem preciso dizer que ele caiu na risada né? Eu também cairia!
Às seis da tarde, me sentindo a rainha do mar, desci para o camarote para escrever minha matéria... As idéias estavam fervendo na cabeça e eu não queria perder um só detalhe.. Fiquei ali, escrevendo, escrevendo, escrevendo... E o barco balançando, balançando, balançando... Lição número dois: Nunca misture esses dois "ingredientes"... Mas, só descobri isso quando levantei a cabeça! S-O-C-O-R-R-O! Tive vontade de gritar... Resolvi tomar um banho... Sempre soube que pra curar bebedeira, um banho era sempre bem vindo... E como eu me sentia exatamente assim, uma ébria, decidi que aquela dica seria mais que apropriada!
Não vou entrar aqui nos detalhes do banho, mas posso dizer que usar o banheiro em um navio em movimento, é infinitamente mais difícil que em um avião em plena turbulência! Quanto mais eu insistia em ir para embaixo do chuveiro, o balanço do mar me jogava para o lado oposto... A cena era patética... Tive uma crise de riso e por um momento até esqueci que estava enjoada! Acho que foi o banho mais mal tomado de toda a minha vida!!!! E pra trocar de roupa????? Quase que saio completamente nua pois não aguentava mais tentar me equilibrar e conter o enjôo... Mas, em uma tripulação com 52 homens, achei mais apropriado vestir uma roupa! Tenho certeza que tomei a decisão certa!
Saí do camarote sentindo que o meu "problema" estava apenas começando... Tomei outro dramin pra tentar melhorar a situação, mas àquela altura do campeonato, não havia mais o que fazer: Voltei ao banheiro e passei a chamar, insistentemente, por "Raul" ... Naquele momento eu tive a certeza de que havia, realmente, exagerado no almoço! Fui pra o corredor do navio e me sentei em um dos sofás, completamente desesperada, sem saber o que fazer... Até Lia me encontrar e chamar o médico... Fui pra injeção, não teve outro jeito... Embora eu tenha pavor de agulha, eu estava desejando, mais que tudo, aquela medicação injetável... Tudo para conter o meu mal estar! Entreguei meu braço direito com toda veemência ao "Doc", como era chamado carinhosamente o médico, mas assim que ele aplicou a injeção senti minhas pernas enfraquecerem, fui caindo e só não desabei porque Margot, que assistia a tudo, me segurou pelo outro braço... Que dor era aquela? lembro de ter gritado: QUE É ISSO?!!! Era uma injeção oleosa e quem já tomou esse tipo de medicação, sabe do que eu tô falando... Não tive nem chance de segurar as lágrimas... elas rolaram no meu rosto involuntariamente... "Quero minha mãe", choraminguei!!! Até hoje meu braço dói e sinto um pouco de dormência no lugar da furada!!!!
Depois de tomar a injeção, ainda chamei "Raul" umas duas vezes, mas logo adormeci... Lembro que antes de pegar no sono, olhei pra "janelinha" do camarote e só vi água, água, água... Quando lembrei que ainda faltava um dia inteiro de viagem, me perguntei "O que é que eu estou fazendo aqui?"... Naquela noite, perdi o "cinema" com cachorro quente... Mas, mesmo que não tivesse "desmaiado", não teria coragem de encarar... Aliás, o resto da viagem eu segui comendo apenas maçã.. Perdi exatos dois quilos na aventura!
Ao contrário do que eu imaginava, dormi muito bem toda a noite... Ainda acordei para ver o nascer do sol, mas, como medo de enjoar, preferi não levantar da cama e segui com meu sono até ás 7 da manhã, hora do café!
Fim do Primeiro dia!