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BRASIL, Nordeste, RECIFE, Mulher, de 26 a 35 anos, Amo música, foto, viajar, escrever, ler e muito chocolate!!


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Quase um trabalho, quase uma crônica...

Hoje parei para arrumar coisas antigas, esquecidas em pastas, prateleiras e gavetas... Entre muitos papéis, um, em especial, me chamou a atenção... Era uma pequena crônica, se é que os escritores me permitem chamar assim... Na verdade, um trabalho de faculdade... Da disciplina percepção melódica, do curso de licenciatura em música, que nunca terminei... Ao ler aquelas páginas, vi que ali estava apenas o borrão! Sim, o original, com certeza alterado na hora de "passar a limpo", ficou com o meu querido professor Marco Caneca, que, embora tenha me prometido devolver os escritos, nunca o fez! Espero que ele tenha feito melhor proveito... Pois eu deixei meus pensamentos esquecidos numa prateleira velha por oito anos... Desde 1996!!!! Talvez este seja o momento certo para me redimir... Espero que gostem do texto, até hoje, sem título!



- Postado por: Tell às 22h39
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De longe, um barulho insistente invade o meu sono. Parece o som de um telefone! Trim... Trim... Trim... Ele se mistura com o som dos meus sonhos e, cada vez mais, vai ganhando espaço. Agora só ouço ele: Trim... Trim... Trim... Sim, é realmente o telefone e agora já estou acordada! me mexo na cama e ela range. Parece reclamar por ter sido acordada.

Trim... Trim... Trim... O telefone insiste! Olho pela janela e o sol me cumprimenta com uma canção: "Good morning, starshine..." Os passarinhos acompanham com diferentes melodias, mas ninguém perde o tom! As folhas das árvores dançam ao som da "sinfonia"... E eu? Eu queria apenas dormir mais um pouco e voltar para os sons dos meus sonhos!

Trim... Trim... Trim... O telefone já toca histérico. "Já vai", grito eu, mais histérica ainda. Como se o aparelho pudesse ouvir e entender... Quanta bobagem! Vou atendê-lo numa preguiça que me faz arrastar as sandálias! Me vem à memória a voz de minha mãe: "Levanta esses pés, menina!!!"

Trim... Trim.. Trim... Chego, finalmente, ao telefone.

- Alô?!

- Telpe despertador automático. Seu telefone é quatro, dois, três, cinco, zero, cinco, nove. Neste momento estamos atendendo à sua programação. Hora certa: Sete Horas! Tu... Tu... Tu... Tu...

Não tem jeito, agora é acordar e partir para a minha rotina... Ou será que já estou nela?

Enquanto acordo, lembro do trabalho sobre SOM que o professor de percepção melódica me passou e que ainda não fiz!!! Queria fazer algo diferente.. Nada de teorias copiadas de livros de grandes "gênios" ou "estudiosos" sobre o assunto. Eu queria algo mais simples, algo que fosse meu! De repente a "ficha cai" e começo a perceber quantos sons ao meu redor.. quantos sons eu já ouvi desde o momento em que acordei... É isso! Eu acabara de descobrir a idéia para o meu trabalho: "A rotina dos sons que me cercam"...  "A rotina dos meus sons"... "Os sons da minha rotina"... Bem, o tema, ainda não estava bem definido, mas isso não interessava naquele momento!!!!

É uma quinta-feira, o dia da semana mais cansativo pra mim. Ligo o rádio, como faço todas as manhãs, e uma música me anima pra o dia que está apenas começando: " Oh Happy day, oh happy day, when Jesus wash..." Percebo o som... Mas, será que perceber o som é Só Ouvir Música??? Começo a desenvolver a minha idéia... Ao ligar o aparelho: "Click!", um barulhinho bom, como diria Carlinhos Brown... Sim, aquilo também era som... Mas, não podia me deter em pequenos detalhes... Levaria horas pra descrever os sons que ocorrem em um minuto. Afinal, tudo produz som. Até o silêncio!!!

Ligo o chuveiro para tomar banho: ruído!

A campainha do vizinho toca: barulho!

Um carro esquenta o motor no estacionamento do edifício (deve ser a álcool): zoada!

O zelador varre o quintal do edifício: zoeira!

Não consigo mais ouvir os passarinhos e o sol desistiu de cantar pra mim! No rádio, o locutor fala um monte de bobagens... Afinal, o som é algo bom ou ruim? Depende!!! O som pode ser Sereno, Ostensivo, Maneiroso... Para a física, o som é Simplesmente Ondas de energia Mecânica que se propagam no ar. E essas ondas podem ser provocadas por qualquer movimento. Até por este: 

   

Experimente riscar em uma folha de papel... tem som!

Já são 8h. Termino de me arrumar e ligo o baixo. Tenho muitos exercícios pra praticar... Andei um pouco relaxada com o estudo. Me concentro no som do instrumento: Um som grave, forte, um som que eu gosto. Estudo até às 9h30 e de repente um outro som, também grave, me chama a atenção. É minha barriga que ronca. Um som interno, informador! Sim, o som tem o poder de informar. ESTOU COM FOME! Preparo alguma "gororoba", como rapidamente e guardo o meu baixo... É hora de sair!

Bato a porta: Zoada!

Ouço vozes na escada: Ruído!

Uma criança chora: Barulho!

Máquinas trabalham em uma contrução ao lado: Zoeira! 



- Postado por: Tell às 22h20
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Pego o Rio Doce/CDU por volta das 10h15... Meu velho ônibus de guerra. Velho mesmo.. é uma batedeira insuportável. O "buzu" entra na Avenida Caxangá, que sempre me parece interminável... Tento matar o tempo contando as paradas, mas sempre perco a conta. Preciso chegar à Universidade Federal até às 11h. Tenho aula de Educação Física.

O ônibus vai lotando e, consequentemente, o barulho, aumentando. Vozes se misturam numa confusão que mais parece uma briga. Os carros buzinam... Guardas apitam... O cobrador insiste em batucar e assobiar.. Um rapaz tenta ganhar a vida:

- Olha o Sonho de Valsa, Serenata de Amor, um é 30, dois é 50, aceito passe!

Chego à UFPE em cima da hora. A aula, ou melhor, o jogo, já está começando! Nunca pensei que depois de velha, no segundo curso universitário, teria que aprender a jogar basquete. A professora passas as instruções e lá vamos nós. A bola quica, bate no aro... Uma histérica (e dessa vez não sou eu) grita... O jogo é uma "zona", uma gritaria... Na lanchonete, um grupo de jovens entoa, ou melhor, desentoa, uma música qualquer...A quadra tem um eco esquisito e o barulho toma porporções que me irritam! Estou na metade do dia, mas não aguento mais a poluição sonora. Queria, agora, o som do silêncio!

Volto para casa, tomo banho e corro para o Conservatório. Nem dá tempo de comer... Já chego atrasada para a aula, esbaforida... E, mesmo assim, lá vou eu gritar, fazer barulho, fazer som! É minha aula de canto! Si i i i i i i i ia, si i i i i i i i i o... sigo com os vocalizes! O ar-condicionado da sala faz uma zoeira horrenda! Na classe ao lado, alguém estuda violino; Na outra, piano... Uma mulher passa pela porta gritando.. E eu continuo lá "cantando". É uma guerra de sons!

A aula termina... Agora já não sou eu quem "grito"... Outra pessoa grita no meu lugar... Vou até a lanchonete e berro:

-Teca, tô com fome, faz uma "amundiçado!

-Com verdura ou sem verdura?

- Sem, claro!



- Postado por: Tell às 22h17
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Enquanto espero o lanche, encontro com Gilberto que me pergunta se já fiz o trabalho de Marco Caneca.

- Tô fazendo!!!

O gordo então me pergunta:

- E aí Gorda, o que é o som?

- Olha, eu não defini o que é som, mas acho que som está em tudo que nos rodeia. E acho mais: O silêncio não existe!

O papo "cabeça" continua até o sanduíche ficar pronto. Agora eu só tenho olhos, ouvidos e boca para o meu "almoço"!

O dia segue nessa correria. Tantos sons que me rodeiam e tão poucos os que percebi... Vou pensando nisso a caminho do shopping e quanto mais eu reflito, menos eu percebo os sons que me cercam... Os sons dos meus pensamentos parecem soar mais alto aos meus ouvidos. Estou cansada...

Entro no camarim do shopping. Elanne, minha parceira de teatro, ainda não chegou. Começo a me arrumar. Não há ninguém no camarim. Eu tenho agora o som do silêncio. Que maravilha! Ele se junta ao som da minha mente de uma forma harmoniosa. O barulho do ar-condicionado (por que eles são sempre tão barulhentos?) faz uma "ponta" nesse espetáculo!

Elanne chega! E já desembesta a falar... Volto à agitação e termino de me arrumar. Pronto! Agora somos cupidos! E lá vamos nós pelos corredores do shopping. Tem barulho de conversa, de música, de criança, de passos, de risos, de máquinas fotográficas... Não consigo entender o que a moça da informação fala pelo sistema de som . Será que alguém entende? 

A hora vai passando... E a gente continua "flechando" todo mundo. Alguém grita:

-Ei cupido, arranja um namorado pra mim

O dia dos namorados se aproxima... Há quanto tempo eu não ouço o som de uma poesia, de um bilhete de amor, de uma voz carinhosa... Sons que só os enamorados percebem!

Epa! Seis e meia! é hora de ir à Federal. Vamos voando para o camarim (afinal, somos anjos, lembra?). Troco de roupa rapidamente e desta vez o camarim está lotado! E lá vou eu de "buzu" novamente, no Shopping/CDU, menos barulhento que o velho Rio Doce! Vou para a aula de percepção melódica. Será que ainda consigo "perceber" alguma coisa? Talvez o cansaço do professor Marco Caneca, que insiste em brigar com o meu! Talvez as brincadeiras de Leandro, Roberto e Adriano... Talvez o silêncio de Laudicéia, o medo de sidney, o meu medo...Talvez as faltas de Gilberto, a submissão de Pereira... Sentimentos que transmitem sons e que resultam numa turma maravilhosa!

O dia está acabando e, em parte, fracassei na minha tarefa. Não consegui perceber todos os sons que me rodeiam. Eles são muitos, não param... Começo a achar que não existe uma rotina para eles. Cada som é único e próprio, mesmo que ele se repita a cada dia... Volto pra casa arrasada de cansaço, doida pra cair na cama e nos sons dos meus sonhos, pra no dia seguinte começar tudo de novo! Bem que a "mulher" da Telpe poderia me esquecer amanhã!



- Postado por: Tell às 22h04
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